sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Vale dos Elfos Prostitutos

Imagem: mindfulness via photopin cc
Era uma vez um vale de elfos. Sobreviver lá era uma dificuldade, assim como em qualquer vale de qualquer mundo. Muitos deles optavam por tornarem-se prostitutos. Mas não, senhores dos bons costumes humanos, não fiquem esbaforidos, pois lá a prostituição não consistia no ato sexual vendido. A putaria ficava nas mãos da literatura.

Os prostitutos eram aqueles que se vendiam para a literatura sobre seres humanos. Uma fantasia absurda só, isso lá no mundo deles, claro. Seres humanos, tão patéticos, tão idiotas, mas os ídolos da gurizada elfo.

Quem queria ingressar na literatura, o jovem, precisava aceitar a submissão de escrever o que a indústria lhe pungia. Disto Ronaldo sabia disso, odiava estórias de seres humanos, afinal de contas, os elfos são bem mais interessantes, assim pensava. Contudo, acontece que, acima de qualquer vontade, a vontade de publicar um livro era maior.

Conseguiu um editor muy amigo que lhe explicou os tramites de uma publicação. Disse-lhe que livros são uma dificuldade para se vender e é difícil mesmo editoras aceitarem assim ao ar livre no desespero a maioria dos originais. O editor lhe avisou que seria necessário uma prostituição literária se quisesse vencer. Havia uma editora com vontade de publicar algo de Disto Ronaldo, mas não podia ser aqueles escritos já escritos por ele e com uma mazela em forma de público. Não! Essa editora, diga-se de passagem, era a do editor muy amigo.

Disto Ronaldo pensou e pensou, sofrendo com a família o pressionando, o chamando de vagabundo, sem entender porque gastava suas energias suando e escrevendo sem parar ao invés de produzir algo pela vida. Com a pressão, proposta de prostituição, nem chegou a pensar duas vezes e no outro dia entrou em contato com seu editor muy amigo.

Aí foi de bem à pior. O editor fundamentou metas e a primeira dela foi tornar Disto Ronaldo em pseudo celebridade artística literária de internet. Ao que tinha agora blog cheio de cometários e textos fúteis, perfil lotado de amigos em redes sociais, etc.

Tudo aquilo que o escritor, agora prostituto, havia escrito antes sumiu do mapa. Até chorou numa noite lembrando-se dos zines, dinheiro gasto em impressão de folhas que ninguém lia, contos, poesias, romances, novelas. Alguns materiais realistas e outros surrealistas, fantasia, alegoria ou sentimentalismo. Nunca lhe interessou o tema a ser escrito. Para escrever bastava querer. Bastava um raio de inspiração cair em sua alma.

E agora estava ali ganhando fama na internet, fantasiado de jovem adolescente descolado. Olhava o que escrevia e só via futilidades. Após meio ano, já que as coisas andam rápidas demais, surgiu a oportunidade única de ter o livro editado por uma editora capaz de fazê-lo circular entre os melhores círculos de literatura bem vendidas da nação dos elfos.

Imensa acabou sendo sua surpresa quando viu que a maior parte do livro havia sido praticamente escrita pelo editor e uma galera absurda especialista em marketing e publicidade. Ditavam o que seria escrito e Disto Ronaldo escrevia imediatamente, de cabeça baixa. Lendo a pré diagramação ainda notou muito do que fora escrito por ele, já extremamente modificado.

Esperou para ver e viu sua obra explodir no mundo. Ser a mais vendida das paradas de sucesso, pipocar em blogues literários cujos os autores nada mais fazem do que ganhar os livros de presente das editoras para que assim falem intimamente bem dessas tais publicações.

Sim, senhor, Disto Ronaldo era então um elfo prostituto escritor de uma estória infantil sobre seres humanos que os seus leitores consideravam algo muito adulto e culto.

Aí teve outra noite daquelas chorando no quarto. Porque sabemos todos que é na escuridão e no silêncio da noite o exato momento da chegada dos infortúnios mentais recorrentes dos arrependimentos e remorsos.

É terrível, é o pior atentando contra um ser, tanto elfo quanto humano, determinar o que ele próprio deve fazer com a sua arte. Disto Ronaldo nunca mais foi o mesmo, morreu na amargura de precisar guardar sua verdadeira arte para si mesmo. Família orgulhosa, pois não interessa ao elfos ver a prostituição literária com maus olhos quando essa lhes provém bom dinheiro, fama internacional, mas muito amargor no coração. Nem pelas bruxas que voaram, zumbis que enriqueceram ou vampiros brilhantes, nem todo um carma de amor pela cultura mainstream foi capaz de fazer o artista verdadeiro se curvar. Disto Ronaldo morreu de desgosto. 

da Infantaria Literária

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