As
Brigadas Muralistas e seu papel na via chilena ao socialismo
Renan da Cruz
Padilha Soares
Introdução
A Unidad
Popular, frente de partidos de esquerda que lançou a candidatura do
Salvador Allende à presidência da República no Chile em 1969, chega ao poder já
enfrentando sua primeira crise. Allende fora eleito como menos de cinquenta por
cento dos votos válidos, necessitando assim a ratificação do congresso.
Já nesse momento evidenciam as
principais forças que estariam disputando os projetos de sociedade no Chile. De
um lado havia a Unidad Popular (UP) e
outros partidos de esquerda que não faziam parte dessa frente, do outro a
direita que tinha no Partido Nacional (PN) seu principal nome, e no centro a Democracia Cristiniana, (DC) que buscava
se apresentar como uma terceira via entre o marxismo e o conservadorismo.
Como Allende apresentava um projeto
claramente socialista, as classes dominantes organizadas reagiram e tentaram
impedir sua posse. Para isso, porém, era preciso atrair a DC, que era o maior
partido do período, além de ter uma forte base social. Nesse momento a DC era
dirigida por sua ala esquerda e, mesmo vendo com desconfiança os projetos
marxistas, não pretendia uma aliança com os setores reacionários que quebrasse
a institucionalidade. Aliás, a grande briga da DC com o governo da UP, fora por
todo esse período à tentativa de fazer com que as mudanças fossem realizadas
através instituição, sem inflamação das massas populares.
Com as pretensões da direita frustrada e
com muita mobilização popular, Salvador Allende garantiu sua posse iniciando um
dos momentos mais marcantes da história do Chile e da América Latina como um
todo.
De 1970 a 1972, então numa segunda fase
do governo, caracterizada pelo sucesso do programa da UP com estabilidade
econômica e reformas estruturais que começavam a modificar o quadro histórico
de desigualdades sociais e subserviência aos interesses dos Estados Unidos. As
eleições municipais de 1971 serviram como plebiscito da aprovação do governo. A
UP obteve 49,8% dos votos e somado isso aos votos de outros partidos da
esquerda fora que não faziam parte da UP evidenciava uma vitória da esquerda e
uma aprovação popular ao projeto de Allende.
Nesse período também se consolidou o que
ficou conhecido como a Via Chilena ao Socialismo, que basicamente acreditava em
transformar a sociedade através de reformas estruturais profundas que, através
de ampla mobilização popular, levaria o Chile ao caminho do socialismo.
Porém, a partir de 1972, a direita que
havia assistido aos primeiros anos do governo de Allende sem conseguir grandes
atuações passa para o contra ataque, jogando o governo contra a parede e
aumentando a crise que se tornou institucional e econômica.
Sob liderança do PN, a direita passou
utilizar grandes mobilizações de massa para atacar o governo. A principal delas
foi o Paro Patronal de 1972 que
paralisou a economia do país, apesar dos esforços dos próprios trabalhadores,
mobilizados pelo governo, de manterem a produção ativa.
Esse é um momento que também se
evidenciam as diferenças dentro da própria UP e da esquerda chilena em geral. Com
o avanço da direita e a radicalização das posições, alguns partidos e
organizações da esquerda denunciavam que a direita optava cada vez mais por uma
saída extra institucional (golpe) e que as tentativas de Allende de tentar
negociar com a DC e garantir a via pacífica eram infrutíferas, visto que esse
partido caminhava cada vez mais para posturas congruentes com a direita.
Ou seja, para algumas organizações e
partidos da esquerda, a Via Chilena ao Socialismo, ou a via pacífica mostrava
suas limitações e que era preciso adotar uma postura mais radical no
enfrentamento com as forças do conservadorismo.
A crise culmina em 11 de setembro de
1973 quando, liderados pelo general Pinochet e financiados pelos Estados
Unidos, as forças armadas chilenas dão o golpe pondo fim à experiência do
governo da UP e à própria vida do presidente Salvador Allende.
As
Brigadas Muralistas e a construção do Homem Novo
Para entendermos o nosso objeto de
estudo específico, que são as Brigadas Muralistas chilenas, é preciso
entendermos a própria concepção das organizações de esquerda e do governo da Unidad Popular no que tange o campo
cultural.
Entendendo que a cultura dominante se
pretende hegemônica e para isso utiliza-se de amplas ferramentas como os
grandes meios de comunicação e a mass
midea (termo criado por Gui Debord nos anos 1940) e que essa cultura
dominante nada mais é que uma reprodução das relações sociais e econômicas
estabelecidas pelo capitalismo e com o objetivo de, em última instância,
preservar o sistema, os grupos políticos e sociais que pretendiam revolucionar
esse sistema através do socialismo, perceberam que não bastava lutar contra o
modo de produção capitalista pura e simplesmente. A luta no campo cultural, ou
contra cultural como dizem alguns estudiosos, na disputa da consciência da
classe trabalhadora se fazia tão importante quanto a luta política tradicional
através das instituições de governo, sindicatos etc.
Os partidos de esquerda e o próprio
governo da UP buscavam, portanto, incentivar a contra cultura popular buscando
criar o que ficou conhecido como o “Homem Novo.” Segundo Marcelo Ridenti o
Homem Novo foi uma característica marcante da esquerda da década de 1960 e
“valorizava acima de tudo a vontade de transformação, a ação dos seres humanos
para transformar a história, num processo de construção do homem novo, nos termos do jovem Marx recuperados por Che Guevara.” (2000).
Tendo em vista isso, não nos surpreende
perceber que as principais Brigadas Muralistas que atuaram no processo eram
ligadas de forma explícita aos principais partidos de esquerda que atuavam na
UP. Em nossa pesquisa estudaremos especificamente a Brigada Romana Parra (BRP),
ligada ao Partido Comunista e a Brigada Elmo Catalán (BEC) ligada ao Partido
Socialista.
Para a “leitura” desses murais,
utilizemos o método da leitura isotópica que segundo Ciro Cardoso são “aqueles
elementos de significação recorrentes, redundantes, repetitivos: os quais, por
tais características, são subjacentes à coerência textual.” (1997).
Sendo assim, procuraremos buscar os
elementos, símbolos e signos em comum nas gravuras pintadas pelas brigadas,
além de buscar perceber os níveis semânticos expostos por Ciro Cardoso,
figurativo, temático e axiológico, aprofundando ainda mais no entendimento
desse elemento tão importante para a história chilena e latina.
Trabalho,
luta e movimento
Vamos começar analisando os murais
feitos pelos artistas da Brigada Romana Parra, ligada ao PC. Porém, antes de
passarmos para as imagens em si, é importante entendermos a posição do Partido
Comunista nas divergências internas da esquerda e seu posicionamento na
sociedade.
Apesar de Allende ser membro do Partido
Socialista, o projeto pacifista não era hegemônico em seu partido, como veremos
mais para frente. O principal partido que defendia a Via Chilena ao Socialismo
era o Partido Comunista.
Sendo assim, encontraremos nos murais da
Brigada Romana Parra uma série de símbolos e representações que irão reforçar o
projeto de poder do PC e sua estratégia de apoiar ao máximo a via pacífica
defendida por Salvador Allende.
Figura 1: Mural produzido em
Santiago, 1972. / Autoria: BRP / Disponível em:
Na figura 1 encontramos elementos
clássicos das gravuras da Brigada Romana Parra e do movimento muralista em
geral. O colorido das gravuras trás uma sensação de positividade, de alegria,
em oposição às cores mais sombrias e obscuras. Isso tem haver com a proposta da
Via Chilena ao Socialismo, onde o caráter carregado do conflito armado e da
violência perde lugar para o colorido das mudanças pela via pacífica.
Não só as cores vivas se repetem como
especificamente o azul, vermelho e branco da bandeira nacional está sempre
presente. Isso revela o caráter nacional da luta da esquerda chilena, o que é
explicado pela forte influência que exerce o imperialismo estadunidense na
história do país, que durante o governo da UP tomou caráter de boicote e
financiamento aos grupos dissidentes.
Será constante também a figura feminina
nos murais das brigadas chilenas. Descendentes diretos dos movimentos da década
de 1960, que questionaram antigos valores da esquerda e colocaram na pauta dos
socialistas as questões de gênero, não é de surpreender a presença da mulher
nos murais. Porém, é interessante observarmos que, como na figura 1, ela está
comumente representada de forma frontal, como que dialogasse com o observador,
chamando-o para fazer parte desses movimentos.
E para chegarmos ao socialismo é preciso
movimento. Por isso é comum encontrar nos murais chilenos desse período as
figuras em perfil, voltadas normalmente para o mesmo lado, dando essa ideia de
movimento de avanço, dos trabalhadores unidos caminhando para sua emancipação.
Figura 2: Mural pintado no bairro de
periferia Juan Atonio Rios, localizado no norte de Santiago, em 1971. /
Autoria: BRP / disponível em: www.abacq.net/imagineria/
Nesse
outro mural da BRP representado na figura 2 encontramos vários dos elementos
cruciais que se repetem e nos ajudam a entender os objetivos da brigada, entre
eles está o colorido, com a presença essencial das cores da bandeira chilena.
Até mesmo a maquinaria nos remete a ideia do movimento.
Nos
murais da BRP também serão frequentes os símbolos que os ligam diretamente com
o Partido Comunista, como vemos nessa última figura a foice e o martelo. Em
outros murais é possível ver também a sigla JJCC, da Juventude Comunista do PC.
Isso é interessante para vermos que, por considerarem o muralismo como não só
uma expressão artística, mas um instrumento de luta, esses murais servem também
como propaganda do partido, afinal se eles acreditavam que os trabalhadores
precisavam se organizar e lutar e que a organização partidária e
especificamente o Partido Comunista cumpria esse papel, nada mais natural que
colocassem seus símbolos e siglas nos murais, como a Brigada do Partido
Socialista também vai fazer.
Percebemos
por essa figura também outro elemento fundamental na constituição dos murais no
período: o trabalhador. Tendo em vista que o projeto da UP para ser implantado
era de suma importância a organização e atuação em massa dos trabalhadores
chilenos, os murais reforçam essa política na valorização do homem trabalhador.
Na
figura 2, por exemplo, é claro o papel de destaque que esse trabalhador ganha
na imagem, estando na parte central e superior. Mas não só, ali estão
representados os três principais ramos da classe trabalhadora chilena: na
esquerda o camponês, no meio o mineiro e na direita o operário, dando ideia de
união da classe para a implementação essas mudanças. A ideia de união é ainda
mais clara se pensarmos que as cabeças representantes de cada um desses ramos
estão coladas, quase como se pertencessem ao mesmo corpo.
Voltaremos
um instante ao Ciro para aprofundarmos essa analise das imagens. Cardoso diz
que “O figurativo é um significado passível de ser correlacionado de forma
direta à um dos cinco sentidos (...). Assim, por exemplo, o amor é temático;
mas os gestos concretos pelos quais o amor se expressa (...) são figurativos.” (1997)
Partindo
desse princípio podemos dizer que em ambas as imagens o movimento da classe
trabalhadora organizada e unida estão no campo temático, ainda assim a
representação desses trabalhadores se expressa por elementos concretos, ou
seja, figurativos. Entre eles podemos destacar na figura 1 a chave de fenda
segurada firmemente por uma mão sem corpo. E na figura 2, os capacetes e o
chapéu do camponês, além, é claro, da própria maquinaria.
Esses
elementos nos remetem novamente à defesa da Via Chilena ao Socialismo. Se
formos analisarmos os cartazes da esquerda da Espanha antes e durante a Guerra
Civil contra os fascistas, ou até os cartazes soviéticos, será comum a presença
constante de armas nas mãos dos trabalhadores ou se soldados propriamente
ditos. Para a BRP as armas dos
trabalhadores são seus próprios instrumentos de trabalho e é claro sua atuação
organizada e coletiva.
Com
esses elementos fundamentais constituidores da Brigada Romana Parra, podemos
passar para a análise de alguns murais da Brigada Elmo Catalán ligada ao
Partido Socialista.
Se
o Partido Comunista era ferrenho defensor da proposta de Salvador Allende da
Via Chilena ao Socialismo, o Partido Socialista apontava com frequência as
limitações desse projeto e a necessidade que a esquerda chilena teria de, em
algum momento, romper com a institucionalidade para aprofundar e consolidar o
socialismo no país, já que a direita mostrava sinais de estar disposta a esse
rompimento para o lado deles.
Sendo
assim, será possível vermos expostas nos murais da BEC essas divergências,
apesar de permanecerem alguns elementos típicos do muralismo.
Figura 3: Mural
intitulado “Trabajadores al poder”, 1971. / Autoria: BEC / Disponível em: www.abacq.net/imagineria/
No mural da BEC, representado na figura
3, podemos, portanto, observar os elementos que se repetem como o colorido, a
forte presença da bandeira chilena, os trabalhadores e suas ferramentas, além
da figura feminina, sempre com o olhar frontal dialogando com o observador.
Mas também vão se destacar as
diferenças. A primeira e mais clara, estando no campo figurativo é presença da
arma de fogo ao lado da bandeira chilena. Essa arma, porém não anula o
instrumento de trabalho, que está no mesmo plano. Isso nos remete a ideia que o
Partido Socialista expunha da necessidade não apenas abstrata da revolução
armada, como a necessidade de armar os trabalhadores para o processo
revolucionário.
Os elementos abstratos também são peça
fundamental para o diálogo que a BEC pretendia fazer com os trabalhadores
chilenos. Assim como na figura 2 do mural da BRP, os trabalhadores da figura 3
estão na parte central e superior da figura. Porém, é sensível pelo
posicionamento dos rostos, das mãos e de outros elementos estilísticos, como a
rachadura no alto da imagem, a ideia de conflito associada ao movimento,
elemento esse que a BRP evitava em seus murais.
Figura 4: Mural institulado “Liberdad
para América Latina. Por la unidade de los pueblos.” / Autoria: Brigada Inti
Peredo / Disponível em: www.abacq.net/imagineria/
O mural acima é de uma terceira brigada
chamada Brigada Inti Peredo, mas que também era ligada ao Partido Socialista e
por isso é possível encontrarmos quase os elementos dissonantes da Brigada Elmo
Catalán.
Nessa
figura 4 encontramos a presença de figuras infantis, que eram bastante comuns
não só nos murais chilenos, como na propaganda da UP em geral, reforçando a
ideia de que o socialismo chileno estava sendo construído para as crianças
daquela época.
Tanto
na figura 3, como na figura 4, apesar do colorido característico, há um
predomínio evidente da cor vermelha, cor essa tradicionalmente ligada à luta e
ao socialismo, reforçando o caráter de maior confronto das brigadas do PS.
Por
fim iremos analisar um último mural de autoria desconhecida, mas que nos
permitirá abordar mais um elemento importante da constituição dos murais
chilenos.
Figura 5: Fragmento do mural produzido
em Santiago, 1972./ Disponível em: www.abacq.net/imagineria/
Nessa imagem encontramos os
elementos característicos dos murais chilenos que tanto já reforçamos aqui,
como os trabalhadores em perfil dando a ideia de movimento em massa. Mas nos
deteremos no que Ciro caracterizou como “nível semântico axiológico, que tem
haver com alguns sistemas de valores – éticos, estéticos, religiosos ou outros
quaisquer que o conteúdo dos textos manifestem.” (1997)
No caso da figura 5 esses calores se tornam evidentes
quando o mural expõem aqueles que são considerados os inimigos dos
trabalhadores chilenos. “Los gorilas”, caracterização dos fascistas, “la
burguesia” e “los yanquis” são representados como figuras monstruosas, pouco
numerosas, mas de tamanho imenso. Em oposição à eles, está a massa de
trabalhadores como que marchando para confrontar esses inimigos. Escrito neles
está: “La segunda independencia”, que era outro elemento crucial da propaganda
do governo de Allende.
Talvez nesse mural esses elementos se tornem mais
evidente, mas os valores do bem (os trabalhadores organizados) e do mal
(Estados Unidos, a burguesia e a direita em geral) são encontrados em
praticamente todos os murais dos brigadistas desse período.
Conclusão
A partir da
hipótese levantada e exposta no início do trabalho, podemos concluir que a
Brigada Romana Parra do Partido Comunista, expunha em seus murais suas
concepções e estratégias de luta que acreditavam ser as mais adequadas para
alcançarem o objetivo final que era o socialismo.
Percebemos,
portanto, a importância que os muralistas, não só da BRP, davam à luta no campo
cultural, acreditando ser essencial a disputa da consciência da classe
trabalhadora somando com isso as lutas tradicionais da política institucional,
sindical etc.
E partindo da
análise dos murais da Brigada Romana Parra, pudemos perceber também as disputas
e divergências dentro do campo da esquerda acentuando aquilo que se repetem nas
gravuras e encontrando o que se difere, para entendermos melhor o que cada grupo
pretendia passar para seu público alvo quando destacavam alguns signos e
desvalorizavam outros.
Por fim, o
trabalho serviu para que possamos trazer para a historiografia a análise
iconográfica tantas vezes rejeitada ou mal aproveitado pelos historiadores,
evidenciando sua importância para a compreensão dos fenômenos e processos
históricos, sem perdermos a consciência do todo. Além do mais, o trabalho
também evidencia que o marxismo, tanto na academia, como na luta política, pode
e deve valorizar o campo cultural, como um terreno de disputa e conflitos de
classe na busca por uma sociedade livre e justa.
Referências:
AGGIO, Alberto. Democracia e Socialismo: A experiência
chilena. São Paulo: Editora Annablume, 2002.
CARDOSO, Ciro F.
Narrativa, Sentido, História. Campinas:
Papirus, 1997.
DALMÁS, Carine. Brigadas Muralistas e Cartazes de
Propaganda da Experiência Chilena (1970-1973). 2006. 191f. Universidade de
São Paulo, São Paulo.
RIDENTI,
Marcelo. Em Busca do Povo Brasileiro:
artista da revolução do CPC à era da tv. Rio de Janeiro: Record, 2000.

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