sábado, 9 de novembro de 2013

Diário de um Aprendiz de Aventureiro

Aztag 7, Altossol, 1400 CE.
No dia seguinte ao aniversário eu acordei bem tarde e perdi a escola. Aztag, primeiro dia da semana, primeiro dia de trabalho, depois do dia do descanso Valag. Eram sempre os piores dias. Voltar ao trabalho, mesmo à escola, era torturante, logo depois do dia do descanso.
Meu pai voltou à sua rotina de vascular as planícies próximas. Esse era um trabalho que ele não esperava remuneração, pois não precisava. Nós éramos ricos. Ele fazia de bom grado, dava uma ajuda à cidade como um bom herói faria. Minha mãe era mais reclusa e se embrenhava a estudar mais em sua biblioteca particular. Às vezes ela visitava a Academia Arcana em Valkaria, para a qual tinha acesso direto por ter sido uma estudante de lá no passado.
Minha irmã ia à escola comigo, mas naquele dia, também acordou tarde e não foi. Estávamos sozinhos em casa e havia um bilhete escrito num pergaminho velho. Pela letra e pelo idioma dracônico, dava pra adivinhar que foi minha mãe a autora.

“Fomos resolver um assunto urgente. Não nos espere para a janta. Cuide de sua irmã”. Dizia. Eu suspirei sem paciência pensando nos motivos desnecessários para ela escrever em dracônico, uma língua que eu não dominava muito bem na época. Minha irmã também não sabia de nada, ainda que pudesse ler um pouco. Pelo menos, era o que achava.
Depois de preparar um pão com leite para Mary Anne, ouvimos palmas do portão. Ainda bocejando, fui ver quem era. Fiquei surpreso de ver o prefeito de Ridembarr por lá.
- Olá, jovem Aldred. Por acaso seus pais estão?
O velho Deikon Heremill era o homem mais rico do vilarejo, dono da única hospedaria. Ridembarr vivia de comércio e turismo, hospedando viajantes que rumavam para a capital. Por isso, era de se esperar que o prefeito fosse o único a ter uma hospedaria, concentrando todo o dinheiro dos viajantes em suas mãos.
- Não. Saíram para resolver alguma coisa urgente. Só voltam amanhã, acho. Quer que eu pegue o recado?
Meus pais se aposentaram da vida de aventuras quando Mary Anne nasceu. E, francamente, eles estavam um pouco velhos, quase cinquentões. Meu pai vivia de rondas simples e minha mãe vivia na biblioteca. Há quase dez anos não saiam em aventuras. Será que eles voltaram à ativa?
- Não, obrigado, jovem Aldred. O assunto requer delicadeza e discrição.
- Pode falar pra mim. De repente eu posso ajudar com alguma coisa. Sei manusear uma espada e estudo magia também. E falo dracônico. - Por que eu disse isso? Estava querendo me meter em alguma encrenca, buscar alguma emoção nesse vilarejo pacato. Apesar disso, eu falei apenas por falar, não esperava que o prefeito fosse aceitar ajuda de um garoto de treze anos.
- Está bem. Este assunto também é urgente. E acho que se você sabe sobre magia e o idioma dracônico, pode talvez ajudar aqui.
Fiquei totalmente surpreso! Eu iria ajudar os adultos em um assunto sério! Hoje em dia eu penso na irresponsabilidade do prefeito Deikon em chamar uma criança para averiguar algo que dizia respeito a adultos. Mas na época eu me senti o máximo, o próprio Arkam Braço-de-Ferro. Peguei uma espada de madeira, vesti roupas leves e disse pra minha irmã que sairia, para não me esperar para a janta. Senti-me o máximo falando isso.
- Eu vou com você. – Ela disse.
- Tá maluca? Será muito perigoso. Podemos enfrentar alguns bandidos.
- Mentira, você só foi chamado porque sabe de magia e a língua dos dragões. Mas eu sei falar nessa língua também.
- Não sabe nada. – Falei, empurrando a cabeça dela pra baixo.
- Vucoti batobot xanalre, wux malai. – Ela disse se desvencilhando da minha mão e mostrando a língua pra mim.
Significava “eu sei essa língua, seu idiota”. Ou algo assim. Fiquei tão embasbacado que decidi deixá-la vir comigo. Ainda que tivesse aceitado sua presença, a decisão de fazê-la vir ou não cabia a mim. Eu ainda estava no controle da situação. Logo, minha arrogância permitiu aceitar que minha pequena irmã soubesse dracônico e pudesse ir junto.
Eu estava intrigadíssimo com o que faríamos. Quer dizer, com o que eu faria, pois considerava minha irmã uma reles acompanhante. Ela estava toda contente com um sorriso estampado. Aquilo me deixava um pouco irritado.
Chegamos à hospedaria, local de trabalho de Deikon. Porém, ao contrário do que se esperava, não havia ninguém hospedado naquele dia. Ao perguntar sobre isso, ele me respondeu que pediu para os hóspedes se acomodarem em casas vizinhas, pois havia acontecido algo singular.
Ele abriu a porta de sua sala, onde ele guardava os papeis da administração da cidade. Senti um cheiro muito forte. Minha irmã fez uma careta e tapou o nariz. No canto da sala, vi uma mulher linda. Cabelos loiros, olhos verdes, pele pálida. Vestia um corselete preto com babados brancos e uma bota preta de couro. Ela sorriu para mim e eu corei. Como um garoto da minha idade, uma mulher bonita dessas poderia causar grandes estragos.
Pude ver seus cabelos se movendo lentamente. Não entendi muito bem o porquê na hora, mas também não consegui prestar atenção a essa parte específica de seu corpo.
A partir disso, eu me lembro do grito da minha irmã. Lembro também de sentir meus músculos retesarem.

Lanag 8, Altossol, 1400 CE.
Eu estava em uma cabana velha de madeira e palha, com decoração de musgo antigo. O cheiro era de velharia, poeira, o que me fez espirar. Estava ainda com as mesmas roupas, limpas. Sentia-me estranho, deslocado. Olhei por entre as madeiras quebradas da janela e pude ver que havia uma floresta lá fora. Percebi estar um pouco longe de Ridembarr, pois lá não havia florestas próximas.
- Temos que conversar, Aldred.
Era a mulher loira. Ela tinha um sorriso malévolo. Olhei para os lados e não vi minha irmã. Só então, eu reparei o que o caro leitor já deve desconfiar. Os cabelos da mulher eram cobras amareladas que davam aspecto de cabelo. Ela era algum tipo de criatura fantástica. Na época eu não sabia se tratar de uma medusa, capaz de petrificar com um olhar, portanto, não entendia como tinha parado ali e essas foram minhas primeiras perguntas.
- Eu o trouxe como uma pedra. Mais fácil para carregá-lo. Preciso de sua ajuda.
Eu arregalei os olhos e senti minha garganta ficar seca. O terror tomou conta de mim. Ajuda? Eu não posso te ajudar, moça. Eu sou um garoto e você me sequestrou. Pensamentos do momento. Mas não disse nada.
- Aquele prefeitinho de Ridembarr falou sobre um casal de aventureiros entendidos de assuntos dracônicos. Mas pensei que encontraria um casal de adultos, não de crianças.
- Onde está minha irmã? – Perguntei, engolindo seco, temendo a resposta.
- Ela está bem. Ela é a garantia que você me ajudará.
- Você tem um jeito estranho de pedir ajuda, moça.
- Não é comum que ajudem uma criatura como eu. – Senti um pingo de amargura na voz. Ou imaginei isso.
- Liberte minha irmã e te ajudarei. – Eu não me lembro de onde saia essa coragem. Só sei que foi assim.
Ela me olhou cerrando o cenho. Seus olhos verdes pareciam cintilar. Seus lábios ameaçaram uma leve tremedeira. Acho que ela estava ficando irritada. E eu sentia um nó no estômago insuportável. Fechei os olhos e abaixei a cabeça, esperando o pior.
Senti uma mão suave nos meus cabelos. Um afago carinhoso, totalmente inesperado. Senti um frio na espinha. Ameacei olhá-la com apenas um olho. Minhas pálpebras tremiam violentamente.
- Garoto, se quisesse a morte de sua irmã, já teria feito. Só colabore. Não me faça perder a cabeça. Minhas serpentes tem menos paciência que eu.
Algumas serpentes, de fato, agitaram-se para perto de mim, mostrando pequenos dentes afiados. Senti que tremia o corpo todo. A mulher com cabelos de serpente se afastou, então, sem esperar minha resposta. Ela foi até um amontoado de madeira que um dia foram móveis e pegou um pergaminho.
- Quero que leia o que está escrito aqui, garoto.
Várias dúvidas atormentaram minha mente. O que ela queria comigo afinal? Onde estavam meus pais? Onde estava o elo telepático com minha mãe? Ela deveria ser incrivelmente poderosa para conseguir me manter longe da minha mãe, uma maga capaz de coisas incríveis.
Decidi pegar o pergaminho. A pressão da situação me impediu de me concentrar na primeira olhada, de modo que se tornou impossível ler aqueles garranchos dracônicos. A língua dos dragões é muito áspera com caracteres bruscos. O alfabeto era muito diferente do Valkar, lembrava um pouco o élfico, mas não sou nenhum especialista nisso. Abaixei o pergaminho e olhei para ela. A medusa estava de costas, encarando a janela. Talvez ela tenha sentido necessidade de dar alguma explicação.
- Meu nome é Ilendar. Venho do Deserto da Perdição, um lugar longínquo e hostil. Desde o primeiro momento em que pisei nas terras do Reinado fui hostilizada. O povo humano é cruel e mesquinho.
Ela virou o rosto para mim. Suas serpentes já não tiravam os olhos de mim. Engoli seco.
- E por causa de sua gente a minha irmã foi raptada. E está desaparecida.
O meu medo era muito grande. Eu não conseguia raciocinar tudo aquilo que ela dizia. Normalmente, eu teria pensado que ela era uma criatura injustiçada, por ser diferente, sofria nas mãos dos humanos. Por ter essa capacidade de petrificação e pelo histórico de outros seres de sua raça, era compreensível que fossem mal tratadas e vistas como monstros. Mesmo assim, não parecia ser o certo. Elas foram julgadas e consideradas monstros sem ao menos terem a chance de provar o contrário. Era um dos motivos principais para o surgimento de vilões.
Mas é claro, naquele momento eu só queria ir embora dali e, se possível, com minha irmã.
- Este pergaminho é bem difícil. Não consigo entender direito. Se voltarmos para Ridembarr, tenho certeza que minha mãe vai ler para você.
Eu disse, com a voz aguda no começo, mas depois me acostumado a falar. Ela ouvia. O silêncio era uma boa notícia. Então, continuei.
- Meus pais são grandes heróis, poderosos. Não queira torná-los seus inimigos. E é isso que está fazendo mantendo a mim e minha irmã presos. – Eram mais ou menos essas minhas palavras.
- Não tenho nada a perder. Só quero encontrar minha irmã. Ajude-me com isso e você poderá ir embora com a sua.
Engoli seco, pela milésima vez. Eu estava mais calmo naquele momento. Conversar com ela, sem sentir a pressão das ameaças me ajudou bastante. Ela tinha mudado seu tom violento para um de ajuda. Olhei novamente o pergaminho e as palavras faziam um pouco mais de sentido.
“Wer vanti kornari, ghoros wer graprovra geou qe raviwra ini wer whedabra di wer whedab thurkear”.
Era uma frase difícil. Eu entendia que “raviwra” era corrupto. Não tinha certeza do que significava “whedabra”, achava que era escuridão, trevas, algo assim. “Thurkear” certamente era noite. Ou lua.
Olhei para Ilendar, a medusa, com muito receio. Eu não sabia desvendar o que estava escrito. Ela poderia me matar em segundos. Procurei novamente com os olhos nervosos alguma espécie de saída ou objeto que pudesse usar para a violência. Nada. Minhas pernas começaram a tremer e eu voltei a sentir um medo paralisante.
- E então? Espero que não tente me enganar. Já sabe o que vai acontecer se você me for inútil, não é? – Ela disse dando passos nervosos em minha direção, as serpentes se agitaram, sibilando e mostrando os dentes afiados.
- Minha irmã – uma ideia louca – entende dracônico também. Ela pode me ajudar aqui. Eu não estudei muito bem...
Levei uma bofetada. Senti minha bochecha queimar e ficar dolorida imediatamente. Era uma dor muito inconveniente e eu era uma criança. O choro que veio em seguida era inevitável. Não sou e nem nunca fui de “abrir o berreiro”, chorar compulsivamente. Mas algumas lágrimas eu pus para fora, frustrado.
Pelo menos era uma bofetada, não uma mordida de serpente.
Ilendar saiu da cabana em seguida. Não sabia o que pensar. Levantei e corri para a janela, que estava no lado oposto da porta. Ela era um buraco com várias madeiras pregadas, impedindo a passagem de uma pessoa do meu tamanho – e olha que eu era baixinho. Peguei com força uma das tábuas e puxei para tentar vencer os pregos. Eu consegui arrebentar um, depois de usar toda minha força. O buraco ainda não era grande o suficiente. Peguei uma segunda tábua e fiz força, quando consegui arrancá-lo de lá e ver o buraco suficiente para minha fuga, ouvi a porta atrás de mim fechar com força.
- Moleque atrevido.
Olhei assustado e vi Ilendar com minha irmã com lágrimas nos olhos. Ela estava de joelhos em sua frente. Não parecia ter nenhum ferimento à vista, só uns arranhões nos braços.
- Mary Anne, vem cá. Lê isso aqui.
Peguei o pergaminho que estava no chão, próximo a mim e estiquei a mão para ela. Minha irmã se levantou e andou lentamente, ainda soluçando. Ilendar observava tudo com uma expressão nada amigável.
Minha irmã pegou o pergaminho e tirou os cabelos cacheados do rosto, enxugando também as lágrimas. Ela não demorou muito para falar.
- Não sei.
Eu sorri nervosamente. Garota estúpida!
- Tente de novo. Veja, isso aqui é escuridão. E isso é corrupto. Vamos, você consegue.
Minhas esperanças estavam todas nela. Queria pelo menos entender mais palavras, não precisava saber tudo. Algumas palavras seriam suficientes para deduzir a frase.
- A-acho que “kornari” é coração. É sim. Como na canção de mamãe.
Coração. Escuro, corrupto, coração. Precisava mais um pouco.
- Isso mesmo, garota. Lembre-se das canções. Mamãe gosta de cantar em dracônico para você. – Eu disse, afagando o cabelo dela. Algo impensável, jamais faria isso se a situação não fosse crítica.
- “Graprovra” é amargura. E “vanti” é inocente.
Coração inocente, amargura, corrompido, trevas.
Levantei-me e encarei Ilendar, extasiado.
- O coração inocente, provavelmente quando fica amargurado, é corrompido pelas trevas. – Eu sorri triunfante.
O olhar de Ilendar mudou. Antes era de raiva contida. Agora era indecifrável. Séria, olhos de desinteresse, talvez?
- Não me ajudou muito. – Ela esboçou um sorriso no canto dos lábios. Abaixou a cabeça. E deu um soluço. Estava chorando.
Eu engoli seco, mas mudei minha ideia do panorama da situação. Ela era uma mulher, uma pessoa que precisava de ajuda. Como era vista como monstro, ninguém a ajudaria se não recorresse aos métodos vilanescos, que se era esperado dela.
- Onde achou esse pergaminho? – Eu perguntei, me aproximando dela.
- Quando minha irmã foi raptada por homens de Yuden, eu entrei em desespero – ela disse, com uma voz chorosa – e encontrei um feiticeiro aventureiro depois de vagar em depressão. Ele fez um ritual para me ajudar e me deu este pergaminho, dizendo que se referia à minha irmã. Mas ele não queria ou não sabia decifrar a língua dos dragões. Ele indicou esse vilarejo, para que pudesse encontrar aquele que falava essa língua. Ou seja, você.
Limpei o suor da testa. O verão era uma época bem quente nessa região, ainda mais cercada de árvores, tornando tudo muito úmido. Mas bem, fiquei surpreso com o fato de ser escolhido para interpretar essas letras. Apesar de achar que a referência era minha mãe, não eu.
- Viu só. O feiticeiro aventureiro te ajudou. Nem todos nós somos cruéis e mesquinhos.
- Você não sabe o que ele cobrou em troca. – Ela olhou para mim com raiva. E eu pude suspeitar.
- Mas eu te ajudei e não vou pedir nada em troca. Só minha vida e da minha irmã, claro. – Falei com um tom mais amigável, tentando amenizar a situação. Acho que deu certo, pois Ilendar, enfim, sorriu.
- Ao sair de daqui, você tem que andar para norte. Encontrará a estrada e siga a oeste. Chegará a Ridembarr em poucas horas. Por mais que o pergaminho não tenha me ajudado a encontrar minha irmã, me deu mais uma pista. Tenebra. Irei à Valkaria em busca de maiores informações.
- O povo de Valkaria é menos simpático que no campo, mas aceita melhor as diferenças. Afinal, tem todo tipo de raça morando lá. – Eu disse, tentado animá-la. – Você vai encontrar sua irmã, tenho certeza.
Ela sorriu para mim novamente e virou as costas. Antes de sair pela porta, apontou para o entulho de madeiras e detritos, no canto do casebre.
- Ali tem uma espada. Pegue-a para proteger a si e a sua irmã no caminho de volta. Soube que aqui tem tribos de gnolls perigosas que gostam de jantar garotinhos.
Eu sorri de volta para ela e disse em desafio:
- Eu não sou um garotinho.

Foi assim, caro leitor, que eu decidi que seria aventureiro quando crescesse. Depois de passar por essa experiência tão jovem, não conseguia pensar em outra vida se não a de aventuras, de viajar pelo mundo desconhecido e resolver mistérios, coletar tesouros e enfrentar monstros. E claro, principalmente, ajudar as pessoas necessitadas.

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