Aztag 7,
Altossol, 1400 CE.
No dia seguinte ao aniversário
eu acordei bem tarde e perdi a escola. Aztag, primeiro dia da semana, primeiro
dia de trabalho, depois do dia do descanso Valag. Eram sempre os piores dias.
Voltar ao trabalho, mesmo à escola, era torturante, logo depois do dia do
descanso.
Meu pai voltou à sua rotina de
vascular as planícies próximas. Esse era um trabalho que ele não esperava
remuneração, pois não precisava. Nós éramos ricos. Ele fazia de bom grado, dava
uma ajuda à cidade como um bom herói faria. Minha mãe era mais reclusa e se
embrenhava a estudar mais em sua biblioteca particular. Às vezes ela visitava a
Academia Arcana em Valkaria, para a qual tinha acesso direto por ter sido uma
estudante de lá no passado.
Minha irmã ia à escola comigo,
mas naquele dia, também acordou tarde e não foi. Estávamos sozinhos em casa e
havia um bilhete escrito num pergaminho velho. Pela letra e pelo idioma
dracônico, dava pra adivinhar que foi minha mãe a autora.
“Fomos resolver um assunto
urgente. Não nos espere para a janta. Cuide de sua irmã”. Dizia. Eu suspirei
sem paciência pensando nos motivos desnecessários para ela escrever em
dracônico, uma língua que eu não dominava muito bem na época. Minha irmã também
não sabia de nada, ainda que pudesse ler um pouco. Pelo menos, era o que
achava.
Depois de preparar um pão com
leite para Mary Anne, ouvimos palmas do portão. Ainda bocejando, fui ver quem
era. Fiquei surpreso de ver o prefeito de Ridembarr por lá.
- Olá, jovem Aldred. Por acaso
seus pais estão?
O velho Deikon Heremill era o
homem mais rico do vilarejo, dono da única hospedaria. Ridembarr vivia de
comércio e turismo, hospedando viajantes que rumavam para a capital. Por isso,
era de se esperar que o prefeito fosse o único a ter uma hospedaria,
concentrando todo o dinheiro dos viajantes em suas mãos.
- Não. Saíram para resolver
alguma coisa urgente. Só voltam amanhã, acho. Quer que eu pegue o recado?
Meus pais se aposentaram da
vida de aventuras quando Mary Anne nasceu. E, francamente, eles estavam um
pouco velhos, quase cinquentões. Meu pai vivia de rondas simples e minha mãe
vivia na biblioteca. Há quase dez anos não saiam em aventuras. Será que eles
voltaram à ativa?
- Não, obrigado, jovem Aldred.
O assunto requer delicadeza e discrição.
- Pode falar pra mim. De
repente eu posso ajudar com alguma coisa. Sei manusear uma espada e estudo
magia também. E falo dracônico. - Por que eu disse isso? Estava querendo me
meter em alguma encrenca, buscar alguma emoção nesse vilarejo pacato. Apesar
disso, eu falei apenas por falar, não esperava que o prefeito fosse aceitar
ajuda de um garoto de treze anos.
- Está bem. Este assunto também
é urgente. E acho que se você sabe sobre magia e o idioma dracônico, pode
talvez ajudar aqui.
Fiquei totalmente surpreso! Eu
iria ajudar os adultos em um assunto sério! Hoje em dia eu penso na
irresponsabilidade do prefeito Deikon em chamar uma criança para averiguar algo
que dizia respeito a adultos. Mas na época eu me senti o máximo, o próprio
Arkam Braço-de-Ferro. Peguei uma espada de madeira, vesti roupas leves e disse
pra minha irmã que sairia, para não me esperar para a janta. Senti-me o máximo
falando isso.
- Eu vou com você. – Ela disse.
- Tá maluca? Será muito perigoso.
Podemos enfrentar alguns bandidos.
- Mentira, você só foi chamado
porque sabe de magia e a língua dos dragões. Mas eu sei falar nessa língua
também.
- Não sabe nada. – Falei,
empurrando a cabeça dela pra baixo.
- Vucoti batobot xanalre, wux
malai. – Ela disse se desvencilhando da minha mão e mostrando a língua pra mim.
Significava “eu sei essa
língua, seu idiota”. Ou algo assim. Fiquei tão embasbacado que decidi deixá-la
vir comigo. Ainda que tivesse aceitado sua presença, a decisão de fazê-la vir ou
não cabia a mim. Eu ainda estava no controle da situação. Logo, minha
arrogância permitiu aceitar que minha pequena irmã soubesse dracônico e pudesse
ir junto.
Eu estava intrigadíssimo com o
que faríamos. Quer dizer, com o que eu faria, pois considerava minha irmã uma
reles acompanhante. Ela estava toda contente com um sorriso estampado. Aquilo
me deixava um pouco irritado.
Chegamos à hospedaria, local de
trabalho de Deikon. Porém, ao contrário do que se esperava, não havia ninguém
hospedado naquele dia. Ao perguntar sobre isso, ele me respondeu que pediu para
os hóspedes se acomodarem em casas vizinhas, pois havia acontecido algo
singular.
Ele abriu a porta de sua sala,
onde ele guardava os papeis da administração da cidade. Senti um cheiro muito
forte. Minha irmã fez uma careta e tapou o nariz. No canto da sala, vi uma
mulher linda. Cabelos loiros, olhos verdes, pele pálida. Vestia um corselete
preto com babados brancos e uma bota preta de couro. Ela sorriu para mim e eu
corei. Como um garoto da minha idade, uma mulher bonita dessas poderia causar
grandes estragos.
Pude ver seus cabelos se
movendo lentamente. Não entendi muito bem o porquê na hora, mas também não
consegui prestar atenção a essa parte específica de seu corpo.
A partir disso, eu me lembro do
grito da minha irmã. Lembro também de sentir meus músculos retesarem.
Lanag
8, Altossol, 1400 CE.
Eu estava em uma cabana velha
de madeira e palha, com decoração de musgo antigo. O cheiro era de velharia,
poeira, o que me fez espirar. Estava ainda com as mesmas roupas, limpas.
Sentia-me estranho, deslocado. Olhei por entre as madeiras quebradas da janela
e pude ver que havia uma floresta lá fora. Percebi estar um pouco longe de
Ridembarr, pois lá não havia florestas próximas.
- Temos que conversar, Aldred.
Era a mulher loira. Ela tinha
um sorriso malévolo. Olhei para os lados e não vi minha irmã. Só então, eu
reparei o que o caro leitor já deve desconfiar. Os cabelos da mulher eram
cobras amareladas que davam aspecto de cabelo. Ela era algum tipo de criatura
fantástica. Na época eu não sabia se tratar de uma medusa, capaz de petrificar
com um olhar, portanto, não entendia como tinha parado ali e essas foram minhas
primeiras perguntas.
- Eu o trouxe como uma pedra.
Mais fácil para carregá-lo. Preciso de sua ajuda.
Eu arregalei os olhos e senti
minha garganta ficar seca. O terror tomou conta de mim. Ajuda? Eu não posso te ajudar,
moça. Eu sou um garoto e você me sequestrou. Pensamentos do momento. Mas não
disse nada.
- Aquele prefeitinho de Ridembarr
falou sobre um casal de aventureiros entendidos de assuntos dracônicos. Mas
pensei que encontraria um casal de adultos, não de crianças.
- Onde está minha irmã? –
Perguntei, engolindo seco, temendo a resposta.
- Ela está bem. Ela é a
garantia que você me ajudará.
- Você tem um jeito estranho de
pedir ajuda, moça.
- Não é comum que ajudem uma
criatura como eu. – Senti um pingo de amargura na voz. Ou imaginei isso.
- Liberte minha irmã e te
ajudarei. – Eu não me lembro de onde saia essa coragem. Só sei que foi assim.
Ela me olhou cerrando o cenho.
Seus olhos verdes pareciam cintilar. Seus lábios ameaçaram uma leve tremedeira.
Acho que ela estava ficando irritada. E eu sentia um nó no estômago
insuportável. Fechei os olhos e abaixei a cabeça, esperando o pior.
Senti uma mão suave nos meus
cabelos. Um afago carinhoso, totalmente inesperado. Senti um frio na espinha.
Ameacei olhá-la com apenas um olho. Minhas pálpebras tremiam violentamente.
- Garoto, se quisesse a morte
de sua irmã, já teria feito. Só colabore. Não me faça perder a cabeça. Minhas
serpentes tem menos paciência que eu.
Algumas serpentes, de fato,
agitaram-se para perto de mim, mostrando pequenos dentes afiados. Senti que
tremia o corpo todo. A mulher com cabelos de serpente se afastou, então, sem
esperar minha resposta. Ela foi até um amontoado de madeira que um dia foram
móveis e pegou um pergaminho.
- Quero que leia o que está
escrito aqui, garoto.
Várias dúvidas atormentaram
minha mente. O que ela queria comigo afinal? Onde estavam meus pais? Onde estava
o elo telepático com minha mãe? Ela deveria ser incrivelmente poderosa para
conseguir me manter longe da minha mãe, uma maga capaz de coisas incríveis.
Decidi pegar o pergaminho. A
pressão da situação me impediu de me concentrar na primeira olhada, de modo que
se tornou impossível ler aqueles garranchos dracônicos. A língua dos dragões é
muito áspera com caracteres bruscos. O alfabeto era muito diferente do Valkar,
lembrava um pouco o élfico, mas não sou nenhum especialista nisso. Abaixei o
pergaminho e olhei para ela. A medusa estava de costas, encarando a janela.
Talvez ela tenha sentido necessidade de dar alguma explicação.
- Meu nome é Ilendar. Venho do
Deserto da Perdição, um lugar longínquo e hostil. Desde o primeiro momento em
que pisei nas terras do Reinado fui hostilizada. O povo humano é cruel e
mesquinho.
Ela virou o rosto para mim.
Suas serpentes já não tiravam os olhos de mim. Engoli seco.
- E por causa de sua gente a
minha irmã foi raptada. E está desaparecida.
O meu medo era muito grande. Eu
não conseguia raciocinar tudo aquilo que ela dizia. Normalmente, eu teria
pensado que ela era uma criatura injustiçada, por ser diferente, sofria nas
mãos dos humanos. Por ter essa capacidade de petrificação e pelo histórico de
outros seres de sua raça, era compreensível que fossem mal tratadas e vistas
como monstros. Mesmo assim, não parecia ser o certo. Elas foram julgadas e
consideradas monstros sem ao menos terem a chance de provar o contrário. Era um
dos motivos principais para o surgimento de vilões.
Mas é claro, naquele momento eu
só queria ir embora dali e, se possível, com minha irmã.
- Este pergaminho é bem
difícil. Não consigo entender direito. Se voltarmos para Ridembarr, tenho
certeza que minha mãe vai ler para você.
Eu disse, com a voz aguda no
começo, mas depois me acostumado a falar. Ela ouvia. O silêncio era uma boa
notícia. Então, continuei.
- Meus pais são grandes heróis,
poderosos. Não queira torná-los seus inimigos. E é isso que está fazendo
mantendo a mim e minha irmã presos. – Eram mais ou menos essas minhas palavras.
- Não tenho nada a perder. Só
quero encontrar minha irmã. Ajude-me com isso e você poderá ir embora com a
sua.
Engoli seco, pela milésima vez.
Eu estava mais calmo naquele momento. Conversar com ela, sem sentir a pressão das
ameaças me ajudou bastante. Ela tinha mudado seu tom violento para um de ajuda.
Olhei novamente o pergaminho e as palavras faziam um pouco mais de sentido.
“Wer vanti kornari, ghoros wer graprovra geou qe raviwra ini wer
whedabra di wer whedab thurkear”.
Era uma frase difícil. Eu
entendia que “raviwra” era corrupto. Não tinha certeza do que significava
“whedabra”, achava que era escuridão, trevas, algo assim. “Thurkear” certamente
era noite. Ou lua.
Olhei para Ilendar, a medusa,
com muito receio. Eu não sabia desvendar o que estava escrito. Ela poderia me
matar em segundos. Procurei novamente com os olhos nervosos alguma espécie de
saída ou objeto que pudesse usar para a violência. Nada. Minhas pernas
começaram a tremer e eu voltei a sentir um medo paralisante.
- E então? Espero que não tente
me enganar. Já sabe o que vai acontecer se você me for inútil, não é? – Ela
disse dando passos nervosos em minha direção, as serpentes se agitaram,
sibilando e mostrando os dentes afiados.
- Minha irmã – uma ideia louca
– entende dracônico também. Ela pode me ajudar aqui. Eu não estudei muito
bem...
Levei uma bofetada. Senti minha
bochecha queimar e ficar dolorida imediatamente. Era uma dor muito
inconveniente e eu era uma criança. O choro que veio em seguida era inevitável.
Não sou e nem nunca fui de “abrir o berreiro”, chorar compulsivamente. Mas
algumas lágrimas eu pus para fora, frustrado.
Pelo menos era uma bofetada,
não uma mordida de serpente.
Ilendar saiu da cabana em
seguida. Não sabia o que pensar. Levantei e corri para a janela, que estava no
lado oposto da porta. Ela era um buraco com várias madeiras pregadas, impedindo
a passagem de uma pessoa do meu tamanho – e olha que eu era baixinho. Peguei
com força uma das tábuas e puxei para tentar vencer os pregos. Eu consegui
arrebentar um, depois de usar toda minha força. O buraco ainda não era grande o
suficiente. Peguei uma segunda tábua e fiz força, quando consegui arrancá-lo de
lá e ver o buraco suficiente para minha fuga, ouvi a porta atrás de mim fechar
com força.
- Moleque atrevido.
Olhei assustado e vi Ilendar
com minha irmã com lágrimas nos olhos. Ela estava de joelhos em sua frente. Não
parecia ter nenhum ferimento à vista, só uns arranhões nos braços.
- Mary Anne, vem cá. Lê isso
aqui.
Peguei o pergaminho que estava
no chão, próximo a mim e estiquei a mão para ela. Minha irmã se levantou e
andou lentamente, ainda soluçando. Ilendar observava tudo com uma expressão
nada amigável.
Minha irmã pegou o pergaminho e
tirou os cabelos cacheados do rosto, enxugando também as lágrimas. Ela não
demorou muito para falar.
- Não sei.
Eu sorri nervosamente. Garota
estúpida!
- Tente de novo. Veja, isso
aqui é escuridão. E isso é corrupto. Vamos, você consegue.
Minhas esperanças estavam todas
nela. Queria pelo menos entender mais palavras, não precisava saber tudo.
Algumas palavras seriam suficientes para deduzir a frase.
- A-acho que “kornari” é
coração. É sim. Como na canção de mamãe.
Coração. Escuro, corrupto,
coração. Precisava mais um pouco.
- Isso mesmo, garota. Lembre-se
das canções. Mamãe gosta de cantar em dracônico para você. – Eu disse, afagando
o cabelo dela. Algo impensável, jamais faria isso se a situação não fosse
crítica.
- “Graprovra” é amargura. E “vanti”
é inocente.
Coração inocente, amargura,
corrompido, trevas.
Levantei-me e encarei Ilendar,
extasiado.
- O coração inocente,
provavelmente quando fica amargurado, é corrompido pelas trevas. – Eu sorri
triunfante.
O olhar de Ilendar mudou. Antes
era de raiva contida. Agora era indecifrável. Séria, olhos de desinteresse,
talvez?
- Não me ajudou muito. – Ela
esboçou um sorriso no canto dos lábios. Abaixou a cabeça. E deu um soluço.
Estava chorando.
Eu engoli seco, mas mudei minha
ideia do panorama da situação. Ela era uma mulher, uma pessoa que precisava de
ajuda. Como era vista como monstro, ninguém a ajudaria se não recorresse aos
métodos vilanescos, que se era esperado dela.
- Onde achou esse pergaminho? –
Eu perguntei, me aproximando dela.
- Quando minha irmã foi raptada
por homens de Yuden, eu entrei em desespero – ela disse, com uma voz chorosa –
e encontrei um feiticeiro aventureiro depois de vagar em depressão. Ele fez um
ritual para me ajudar e me deu este pergaminho, dizendo que se referia à minha
irmã. Mas ele não queria ou não sabia decifrar a língua dos dragões. Ele
indicou esse vilarejo, para que pudesse encontrar aquele que falava essa
língua. Ou seja, você.
Limpei o suor da testa. O verão
era uma época bem quente nessa região, ainda mais cercada de árvores, tornando
tudo muito úmido. Mas bem, fiquei surpreso com o fato de ser escolhido para
interpretar essas letras. Apesar de achar que a referência era minha mãe, não
eu.
- Viu só. O feiticeiro
aventureiro te ajudou. Nem todos nós somos cruéis e mesquinhos.
- Você não sabe o que ele
cobrou em troca. – Ela olhou para mim com raiva. E eu pude suspeitar.
- Mas eu te ajudei e não vou
pedir nada em troca. Só minha vida e da minha irmã, claro. – Falei com um tom
mais amigável, tentando amenizar a situação. Acho que deu certo, pois Ilendar,
enfim, sorriu.
- Ao sair de daqui, você tem
que andar para norte. Encontrará a estrada e siga a oeste. Chegará a Ridembarr
em poucas horas. Por mais que o pergaminho não tenha me ajudado a encontrar
minha irmã, me deu mais uma pista. Tenebra. Irei à Valkaria em busca de maiores
informações.
- O povo de Valkaria é menos
simpático que no campo, mas aceita melhor as diferenças. Afinal, tem todo tipo
de raça morando lá. – Eu disse, tentado animá-la. – Você vai encontrar sua
irmã, tenho certeza.
Ela sorriu para mim novamente e
virou as costas. Antes de sair pela porta, apontou para o entulho de madeiras e
detritos, no canto do casebre.
- Ali tem uma espada. Pegue-a
para proteger a si e a sua irmã no caminho de volta. Soube que aqui tem tribos
de gnolls perigosas que gostam de jantar garotinhos.
Eu sorri de volta para ela e
disse em desafio:
- Eu não sou um garotinho.
Foi assim, caro leitor, que eu
decidi que seria aventureiro quando crescesse. Depois de passar por essa
experiência tão jovem, não conseguia pensar em outra vida se não a de
aventuras, de viajar pelo mundo desconhecido e resolver mistérios, coletar
tesouros e enfrentar monstros. E claro, principalmente, ajudar as pessoas
necessitadas.
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