Vida Eterna
Pedro andava na direção da luz e sentia
uma felicidade que raramente sentiu em vida. Tal vida não havia sido muito
gentil com ele nos sessenta anos que esteve na Terra. Quando criança aguentou
quieto as surras do pai alcoólatra. O pior era ver sua mãe ser violentada
física, sexual e psicologicamente. Quando o pai morreu nada melhorou, pelo
contrário: Pedro largou a escola para começar cedo a vida de trabalhador. Nunca
teve infância e antes mesmo de completar 18 anos, já havia passado pelos piores
pesares da vida adulta. Os poucos momentos de prazer e felicidade que teve
durante o resto de sua vida foram ilhas de satisfação em um grande oceano de
trabalho duro em troca de pouco.
Mas agora, nada disso importava. Seus ossos não doíam mais, seus olhos não eram
mais embaçados, seus pulmões não doíam e as preocupações não mais existiam. Uma
morte rápida e indolor foi a última coisa boa que havia lhe acontecido. Com a
esperança de uma vida eterna para descansar e ser feliz enchendo seu coração,
ele apressou os passos na direção da luz.
Andou, andou, andou, cada vez mais rápido até que, de repente, trombou com
outra pessoa parada. Pediu desculpa pelo seu jeito estabanado e só então percebeu
que estava em um lugar amplo e bem iluminado, onde tudo era branco e o ar era
fresco e puro. Ele percebeu que o homem em que havia esbarrado era o último de
uma fila que, nesse ponto, já se estendia para trás de si.
"Onde estamos?" Perguntou Pedro para o homem na sua frente.
"Não sei bem ao certo." Respondeu o homem. "Mas pelo que
entendi, este é o limbo."
Pedro aguardou na fila ansioso. Sua vida eterna de paz e tranquilidade estava
para começar. A fila era gigantesca e parecia que nunca iria chegar sua vez,
mas isto não importava. Aguardou mantendo a chama de felicidade acesa em seu
coração cheio de fé. Reparou que algumas pessoas passavam direto por eles e iam
para o grande portão de entrada do céu. Não entendeu, mas preferiu ignorar.
Chega de preocupações. Não mais. Estava livre dos supérfluos problemas
terrenos.
Muito tempo depois chegou finalmente sua vez. Havia uma cabine com uma mulher
vestida de branco, o cabelo preso em um coque e batom vermelho vivo. Ela
digitava no que parecia ser um computador e disse sem olhar nos olhos de Pedro.
"Nome completo."
Pedro estranhou aquela cena. Não esperava ser recebido assim nos portões do
paraíso.
"Você é um anjo?" Perguntou ele curioso.
A mulher o olhou com desdém e disse: "Devo ser... Agora não seja estúpido
e responda a pergunta. Tem milhares de pessoas morrendo todo segundo e não
temos tempo para cantadas baratas. Nome completo".
Pedro respondeu e não perguntou mais nada. A mulher digitou velozmente em seu
teclado e falou numa voz monotonal, como um robô:
"Não foi à Igreja em nenhum domingo
nos últimos dois anos e contribuiu com o dízimo apenas duzentas e treze vezes
em toda sua vida, somando um valor total de R$4.108,56. Sua renda média era de
R$310,00 por mês. Hummm... Sua situação não é boa... Não é mesmo."
"Eu vou para o inferno?" Perguntou Pedro sentindo um peso em seu
estomago.
A recepcionista deu uma leve risada sarcástica:
"Não tenha tantas esperanças, pois
isso não existe mais. Seu setor é o 7b da Área Laranja. Pegue o transporte
correspondente e durante a viagem você receberá todas as instruções.
Próximo!"
Bem,... Aquilo não era, realmente, o que Pedro esperava da sua chegada ao céu,
mas nada era capaz de abalar sua fé. Ele queria apenas descansar e quem sabe
reencontrar com sua mãe.
O transporte que a recepcionista indicou era na verdade um ônibus. Isso mesmo.
Um velho e comum ônibus, que esperava com o motor ligado ao lado de vários
outros parecidos. Alguns eram bastante confortáveis e em frente a eles havia
uma fila de pessoas bem arrumadas, como se fossem para uma festa chique. Em seu
ônibus, pelo contrário, todos estavam trajando roupas simples, ternos baratos e
seus rostos mostravam as marcas de uma vida de trabalho árduo.
Finalmente embarcou e a viagem começou. Um guia falava com todos com a mesma
frieza que falava a recepcionista. Ele fez com que os passageiros rezassem o
Pai Nosso e a Ave Maria e depois explicou como seria a vida eterna. Se Pedro
não estivesse tão alarmado com o que ouvia, olharia pela janela e perceberia
que o céu não era tão diferente de uma cidade comum. Uma cidade semelhante com
aquela da qual ele veio. Passaram por casarões muito ricos, onde as pessoas
descansavam sob o ar fresco e pareciam bastante felizes. Porém, com o passar do
tempo, as casas foram se tornando menores e mais feias. As poucas pessoas que
transitavam por aqueles lugares não pareciam ser muito felizes.
Mas Pedro não viu nada disso. Ainda tentava entender as palavras do guia. Não
que fossem difíceis, ou proferidas em outra língua. O problema é que eram
palavras que ele jamais achou que fosse ouvir ao chegar no paraíso. Não
entendia por que ele falava que todos precisavam acordar às cinco horas da
manhã e irem trabalhar na Abençoada Fábrica do Senhor, onde estariam ajudando
Deus a concretizar um propósito maior.
“Tudo o que vocês farão a partir de hoje tem um propósito divino.” Dizia o
guia. “Jamais devemos questionar ou duvidar desse propósito, se não estaremos
questionando a vontade do próprio Deus. Devemos deixar nossa fé nos guiar e
seremos felizes. Protegidos para sempre pelo Senhor."
Não era essa ideia de céu que Pedro tinha em mente. Achou que poderia
finalmente ter o descanso que ansiou desde criança e não uma rotina diária. Mas
aquele homem devia estar certo. Haverá um propósito em tudo que Deus faz. Ele
escreve certo com linhas tortas.
Assim começou a vida eterna de Pedro. Acordava cedo e ia trabalhar nas fábricas
do Senhor. Não entendia bem o que produziam, mas não ligou para isso. Aprendeu
a afastar aquela dúvida que pairava como uma sombra sobre seu coração cheio de
fé. Não importava o que faziam, pois faziam em nome de Deus. Esse era o
pensamento geral. A grande maioria dos trabalhadores não questionava esse
propósito. Para aqueles homens de pouca fé, que ousavam duvidar dos objetivos
divinos havia os Inquisidores. Estes eram como a polícia terrena e estavam ali
para garantir que a fé nunca fosse abandonar os corações e as mentes de nenhuma
alma.
Passaram-se dias, meses e talvez anos. Não sabia quanto tempo estava no
paraíso. A rotina diária era psicologicamente cansativa e mesmo que não
sentisse dor ou cansaço físico, estava sempre exausto. Os domingos eram
dedicados ao agradecimento. Passavam o dia inteiro rezando. Depois de tanto
tempo, não cumpria mais os afazeres motivado pela fé e esperança, ele apenas
fazia. Acostumou-se a levantar, trabalhar, rezar e dormir e não sabia mais como
seria sua vida eterna sem esta rotina, que já estava internalizada. Pedro havia
esquecido do seu sonho de descanso eterno.
Assim ele viveria por toda eternidade. Porém, em um dia qualquer que prometia
ser igual a todos os outros, algo lhe chamou a atenção. Viu ao longe um rosto
que lhe pareceu familiar e que não via há vários anos. Correu por entre a
multidão de pessoas, que voltavam para suas casas, até alcançar a mulher. Ela o
olhou assustada por ser interrompida em seu trajeto.
Pedro ficou alguns segundos parado em frente a ela e seus olhos se encheram de
lágrimas. Uma emoção que não sentia desde que chegara naquele lugar tomou conta
de si e com algum esforço falou: "Mamãe,..."
A mãe de Pedro continuou a encará-lo com uma expressão confusa, mas que logo se
transformou em alegria e emoção, tal qual a de Pedro.
Eles se abraçaram, sorriram e tentaram falar muita coisa ao mesmo tempo.
Ficaram parados no meio da rua, enquanto todos passavam por eles. Esqueceram
onde estavam e o que faziam, queriam apenas se curtir.
Quando o movimento de almas trabalhadoras cessou, um homem de uniforme negro e
uma cruz no peito aproximou-se interrompendo o reencontro.
"Andem! Andem!" Disse o inquisidor. "Não podem ficar aqui
parados!"
"Mas este é meu filho, senhor." Disse a mãe de Pedro. "Eu espero
por esse momento há mais tempo que posso contar. Deixe-me ficar mais um pouco
com ele?"
"Negativo." Respondeu o homem. "Saiam agora ou serão
detidos."
"Veja bem,..." Tentou argumentar Pedro, mas quando tocou no ombro do
Inquisidor, este torceu seu braço de forma bastante dolorida.
"Soltem meu filho!" disse a mãe de Pedro correndo em sua.
O Inquisidor soltou Pedro e bateu com o cassetete em forma de cruz no rosto da
mulher desesperada, que caiu no chão chorando. Pedro viu aquela cena e se
lembrou de todas as vezes que viu sua mãe apanhando. Esqueceu de toda fé,
esperança e amor que carregava em seu coração. Agora só conseguia sentir ódio.
Jogou o Inquisidor no chão e começou a bater nele. Fazia isso com muita fúria,
como que para compensar todas as vezes que quis e não pode defender sua mãe.
Logo chegou um carro preto com a cruz característica dos Inquisidores. Três
homens saíram de dentro dele e subjugaram Pedro que foi levado, ainda lutando,
para dentro do veículo.
Andando de um lado para outro na cela suja e mal iluminada, Pedro tentava
entender o que estava acontecendo.
"Que lugar é esse!?" Gritava. "Isso não é o paraíso?! Não pode
ser! Eu vim para o Inferno! Ou será que estou sonhando? É isso... Tudo isso é
um longo pesadelo sem fim."
Havia apenas mais um homem na cela, que acompanhava calado a agitação de Pedro.
"Em primeiro lugar: você não está
sonhando.” Falou finalmente seu companheiro de cárcere. “Em segundo: sim, isto
é um pesadelo. E por fim: não existe inferno, portanto, estas no céu
mesmo."
"Não pode seeer!" Gritou Pedro.
"Mas eu te garanto que é. Olha calouro, estou aqui há várias vidas humanas
e sei bem como as coisas funcionam. O Inferno não existe mais, mas já existiu.
Há muito tempo. Muito antes deu vim para cá.
"E o que houve?" Perguntou Pedro.
"Não sei ao certo, mas deve ter sido bastante útil para ambos os lados
esta unificação." O homem acendeu um cigarro e começou a fumar.
"Você que diz saber tanto...” Continuou Pedro inquieto. “Em que nós
trabalhamos todos os dias naquela fábrica?"
“Não percebe, meu caro?” Perguntou o homem soltando prazerosamente a fumaça do
tabaco. “Em nada.”
“Como assim?!”
“Em absolutamente nada. Algumas profissões são verdadeiramente úteis:
Inquisidores, recepcionistas, guias e motoristas de ônibus, mas a imensa
maioria trabalha por nada."
“Por que?"
"Para manter a fé. A crença em um propósito maior é a única forma que
existe para que essa massa de pessoas não questione o motivo pelos quais alguns
trabalham e outros não. Por que a vida eterna de uns é tão boa e a de outros
tão ruim."
"Como que Deus permite isso?"
"Não sei. Comigo é assim: eu não me meto com Ele e Ele não se mete comigo.
Durante minha estadia na Terra tentei garantir o que era meu, a minha
sobrevivência, custe o que custar. Aqui não é diferente, rapaz."
"Não pode ser. NÃO PODE SER!" Gritou Pedro batendo em uma das
paredes. "Eu preciso falar com Deus. Eu preciso entender o porquê disso
tudo!"
O homem deu uma risada, mais um trago no cigarro e disse: "Não se fala com
o Chefe assim. Mas se você quiser muito, eu conheço uma forma..."
Os dois prisioneiros fugiram através de uma passagem secreta que só aquele
homem conhecia. Andaram por túneis subterrâneos escuros, frios, fétidos e
assustadores. Quem diria que haveria lugares tão podres em pleno paraíso. Eles
caminharam por horas, até que o homem parou.
"Aqui em cima é o palácio real. A Santa Casa do Senhor. Eu ainda acho que
isto é uma loucura, mas o que pode acontecer com você? Morrer?" E riu
satisfatoriamente.
"Eu vou entrar." Decidiu Pedro.
Precisava entender o motivo daquilo. Descobrir se, de fato, tudo o que ele
aprendera em sua vida na Terra estava errado.
"Antes de ir, toma isto." O homem tirou da veste uma pistola calibre
38. "Esse é de um dos meus contatos na Terra. Utilidade nenhuma, mas vai
que assusta alguém. Você fica me devendo essa, heim rapaz."
"Pode deixar."
Pedro passou por um buraco e se viu no hall de um salão imenso e ricamente
decorado. Subiu correndo uma das escadas. Não sabia direito para onde ir, mas
seguiu seu instinto. Entrou em um grande corredor onde no fundo havia uma porta
com uma placa escrita uma simples e poderosa palavra: Deus. Pedro hesitou um
pouco. Será que ele estava preste a realizar o sonho de todo ser vivo e não
vivo deste e de outro plano? Será que ele poderia ter o mesmo privilégio que
teve nosso Senhor Jesus Cristo e falar diretamente com Deus? Como será que é
Deus? O que ele fará para Pedro? Todas essas questões só poderiam ser
resolvidas de uma forma.
Ele então juntou toda sua coragem, avançou até a porta, fechou os olhos e a
abriu de supetão.
Uma forte luz o cegou temporariamente e ele não pode ver quem estava lá. Quando
se acostumou com a claridade, viu que a luz vinha da janela, onde o sol batia.
A sala era redonda, com decoração fina e uma grande mesa de carvalho no centro.
Atrás desta mesa estava um homem de terno e gravata, cabelos e barba branca. Na
sua frente, em uma cadeira menor, estava jovem magro, de cabelos pretos bem
penteados com gel. Ambos fumavam charuto e bebiam um vinho caro. Eles
observavam com estranhamento o invasor.
"Humano!" Disse o homem de cabelo preto.
Pedro deu alguns passos para frente olhando fixamente para o homem de barba
branca. Quando finalmente conseguiu falar perguntou:
"Deus?"
Os dois homens riram prazerosamente.
"Quem é você, meu filho?"
"Me chamo Pedro e tenho muitas perguntas para o Senhor."
O homem levantou-se de sua cadeira e foi cumprimentar Pedro. "Me chamo
Jammes. Na terra era um grande empresário, dono de muitas fábricas na Europa,
na África e na Ásia. Quando morri em 1909, achei que era o fim de minha bela
vida. Como eu estava enganado... Sou apenas um homem. Como você. Não sou
exatamente quem você procura."
"E onde está Deus?" Perguntou Pedro sem entender.
"Agora eu estou no lugar dele. Quero saber o que você está fazendo aqui.
De que área você é?"
"Aposto que é da Área Laranja.” disse o mais jovem.
"Quem você pensa que é para tomar o lugar de Deus?!" Disse Pedro enfurecido.
"Então foi você que transformou esse lugar em um inferno! É você que põem
a gente para trabalhar sem qualquer objetivo, enquanto fuma e bebe! Quando Deus
souber,..."
"DEUS ESTÁ MORTO!" Gritou Jammes com altivez.
Pedro sentiu como se seu coração derretesse.
"Você,..." Gaguejou.
“Claro que não! Não sou tão poderoso. Fomos todos nós que o matamos! Há muito
tempo. Muito antes deu vim para cá. Foi quando as primeiras pessoas resolveram
que seria uma boa usar seu nome para fins pessoais. Quando a Igreja construiu
seu império com sangue e os ossos em nome da suposta palavra de Deus, ele já estava
morto! E eu? Eu salvei esse lugar! Antes de mim isto era uma bagunça,
abandonado às baratas! Eu tornei isto eficiente. Dei uma vida eterna boa para
aqueles que sempre tiveram e mereceram uma vida boa! Dei um propósito para
aqueles pobres miseráveis que não tinham pelo que viver. Vocês já estavam
acostumados com o trabalho pesado, mas agora fazem por fé. Este lugar é um
paraíso sabe por que, Pedro? Por que é igualzinho a Terra. É o nosso
paraíso."
Pedro olhou no fundo dos olhos do homem que se colocara no lugar de Deus. A dor
que sentiu foi mais forte do que tudo que já passara. Não sabia mais o que
fazer. Foi então que se lembrou do que carregava escondido e sacou o revólver.
Os dois homens olharam sem demonstrar qualquer reação. Pedro engatilhou a pistola,
apontou para a própria cabeça e atirou.
Sentiu seu rosto bater contra o chão frio quando caiu. Sentiu o sangue quente
escorrer e sujar o fino mármore da sala. Viu os dois homens o olhando e
sorrindo e só então compreendeu o óbvio: jamais poderia se matar, pois já
estava morto. Uma lágrima escorreu e se misturou ao sangue inútil esparramado.
Imóvel, viu o homem de cabelo preto se levantar e cumprimentar Jammes. Sua
sombra na parede revelava algo que não era visível: Um rabo comprido e chifres
em sua cabeça.
"Vida eterna... Adoro essa palavra.” Disse ele. "Chefe, nem eu
poderia fazer um lugar melhor."
Então Pedro viu quem agora mandava no céu: os mesmos que mandam a séculos na
Terra.

Nenhum comentário:
Postar um comentário